15/04/2008 - Festivais
Wilsinho Mateos, nosso jurado, direto de Londres
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Deus salve a Rainha. Porque seu anúncio, Ele não vai salvar.

Algumas impressões como jurado de TV & Cinema no D&AD, em Londres.

Inglaterra. 30 de janeiro de 1649. O Rei Charles I, condenado pelo parlamento, caminha calmamente do Palácio de St. James até o pátio exterior do Whitehall Palace. E, bem ali, em frente ao suntuoso Banqueting House, construído por seu pai, é decapitado.

Escolhi essa singela passagem da história britânica para ilustrar um pouco minhas impressões como jurado do D&AD.  Pense bem: um povo que já matou seu próprio rei e até Joana D’Arc vai se importar em matar uns filmes?

Tido como um dos prêmios de propaganda mais difíceis e criteriosos do mundo,  vi pessoalmente que o D&AD faz jus à fama. 
Filmes que você daria a vida para que fossem seus são derrubados com uma facilidade que chega a comover.

Campanhas como Bud Light, Fedex, Axe, Altoids, Adidas. Não importa que tenham ganhado tudo em todos os outros festivais. 

Aliás, fiquei na dúvida se os ingleses conhecem outros festivais. Não ouvi nenhuma vez a palavra Clio, One Show e muito menos Cannes. Eles não levam nada disso em conta na hora do julgamento.

Bem, o resultado, prova dessa rigidez toda, é que, dos milhares de filmes inscritos, só uns 40 constarão do livro. E muitos sobreviveram à duras penas, inclusive os que receberam o Nomination ou o Yellow Pencil. Todo e qualquer trabalho recebeu alguma crítica.

Mas nenhum polemizou tanto quanto o Gorilla de Cadbury. Um divisor de águas? Um novo  horizonte?  Uma nova linguagem que chega à propaganda baseada em puro entretenimento? Ou simplesmente picaretagem, sem propósito e nenhum vínculo direto com o produto?  Até o fim do júri da votação não se obteve a resposta definitiva. Só saberemos quando divulgarem os Yellow Pencils (o jurado sai de lá sem saber quem ganhou ou não os Pencils).

 Algumas reflexões (totalmente pessoais, já aviso logo) sobre o evento:

- Toda idéia, por mais brilhante que seja, é passível de crítica. Às vezes inteligente, às vezes tola. Se acontece com a fina flor da propaganda mundial, não se chateie quando criticarem a sua idéia.

- O humor escrachado, na maioria das vezes, faz rir. Mas não faz votar. Na primeira triagem, tinha um monte de filme engraçado, de que todo mundo ria. Eu saí achando que a volta do humor seria uma  tendência. Mas me pergunte se os tais filmes estavam lá na votação posterior. Conclusão: humor tem que ser extremamente inteligente e persuasivo. Pastelões e piadas fáceis são facilmente descartados.

- Idéia bacana, mas sem nada a ver com o produto também leva ferro. Isso explica por que os nossos aclamados argentinos passaram desapercebidos no D&AD. E olha que eles tentaram.

- Uma produção impecável para uma idéia nem tanto não tem vez. Até porque o evento tem categorias específicas para qualidade de produção, com júris próprios.
       
- Se é para ser bizarro, seja de vez.
Skittles segue imbatível nas maluquices, conseguindo manter o nível da campanha e  surpreender.  Altoids, por exemplo,  já está seguindo atrás pela mesma trilha (o que também gerou bastante polêmica no júri).

- Todo júri é igual: no primeiro dia de julgamento, depois de votar o long list, saem dizendo que a propaganda acabou, está em crise, etc, etc. No segundo, vendo o joio separado do trigo, relaxam. Todo júri é controverso. Todo júri sai reclamando do resultado .

- A simplicidade está de volta. 90% dos filmes que ganharam o Nomination e concorreram ao Yellow Pencil poderiam ser feitos com a verba de um cliente médio no Brasil.  (Se o cliente aprovaria a idéia ou se a produção iria ficar igual, aí são outros quinhentos).

Filmes que você deve procurar no Youtube (eu ia procurar, mas não sou seu palhaço):

Interview para Tide – (um tira-manchas da Procter. Prestou atenção no que eu falei? Da Procter).

- Stable e Touch para Skittles. Bizarrice de primeira linha.

Wind para Epuron.

Gorilla para Cadbury. Se você é o 1%  da humanidade que ainda não viu, ainda está em tempo (link aqui).

Tan Hon Ming para Petronas. Obra-prima na história do casting mundial.

Audition Dance Battle. Nesse também vou quebrar seu galho: http://youtube.com/watch?v=IidU7x_JXhs

Dangerous Liaison para Levi’s. Ok, mais um: http://www.ccsp.com.br/ultimas/noticia.phpid=25838
http://youtube.com/watch?v=tqVD6fPYdgE

- Campanha de NET 10. Um conceito totalmente inusitado para telefonia:
http://youtube.com/watch?v=rrpQUp47gkM
http://youtube.com/watch?v=VwJXJWyhHew
http://youtube.com/watch?v=EOZj353rFfQ&feature=related

Filmes que apanharam como cachorro magro, apesar de divertidos:

Lemmings e Chair, para Fedex.
http://youtube.com/watch?v=hRUK9cHFJ5s
http://youtube.com/watch?v=wsf1RmpKyN4

But He Has a Bud Light. http://youtube.com/watch?v=7aO3TO5L0bM

Prision Guard para Centra Beheer
 http://youtube.com/watch?v=daHisdq9Iuo

- Clarence para Baiff
http://youtube.com/watch?v=64pa3f01t0M

Pra concluir, algumas informações sobre o D&AD que você vai gostar de saber: lá, qualidade é o que realmente importa.

Não tem muito espaço de manobra, para politicagem. Não tem “vota no meu que voto no teu”. As discussões se dão em alto nível e sem alteração de voz.

Não tem a farta distribuição de prêmios para agradar a todo mundo ou pra dar mais lucro. Se não tiver nada naquela categoria, não colocam nada e acabou. Sem embaraços.

Os jurados são escolhidos após rigorosa pesquisa (exceto eu, talvez, que fui substituindo o Alê Gama :P ). 

Os filmes não são divididos por categorias de produtos e sim por secundagem. Isso tira aquela sensação de TER quer dar algum prêmio para determinada categoria. O que acaba sendo julgado são as melhores idéias e não as melhores idéias PARA AQUELA categoria de produto.

E o mais surpreendente, se comparado aos outros conhecidos festivais: hoje a entidade D&AD tem status de fundação sem fins lucrativos. Todo o dinheiro angariado nesse festival é revertido a grandes projetos educacionais, como palestras com os grandes nomes da propaganda mundial, um festival exclusivo para estudantes e mais uma porção de coisas. Muito bacana.

Definitivamente, o D&AD é realmente a hora da verdade para qualquer criativo mundial. Não tente se enganar com uns e outros festivais por aí. Se um dia você ganhar o D&AD, comemore bastante.

Se não ganhou ainda, coloque a cabeça para funcionar. Aproveite que você pode.

Charles I, não.

Wilson Mateos é Diretor de Criação da Neogama BBH.

Leia anterior sobre Fernando Campos no Clio, aqui. 




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