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20/05/2011
Clubeonline: Seu primeiro longa, VIPs, que estreou no dia 25 de março, conquistou quatro prêmios no Festival do Rio e foi visto por cerca de 600 mil pessoas, sendo o primeiro longa brasileiro não produzido com apoio da Globo a atingir este público. Você esperava alcançar esses resultados? Toniko Melo: Esperava um resultado bom porque o filme foi pré-testado. Como é uma produção norte-americana, eles pré-testam um monte de coisas. Ele foi muito bem no pré-teste. Isso nos deixou animados. Não que isso signifique necessariamente que o filme será bem aceito pelo público, significa apenas que há uma expectativa muito positiva. Eu, como diretor, contei a história que achava que deveria contar, do jeito que quis, e isso foi testado. De qualquer maneira, acho que os resultados ainda estão aquém do que acredito ser o potencial do filme, porque a gente não teve o apoio da TV Globo e nos fez uma falta enorme. Mas, mesmo assim, na terceira semana de exibição já estávamos entre os top 3 e entre esses top 3 estava o maior lançamento do cinema mundial recente: ‘Rio’. Clubeonline: Como você se interessou em adaptar a história de vida de Marcelo da Rocha, golpista que se passou por várias outras pessoas, para o cinema? Melo: O processo do filme tem oito anos. Eu estava em Paris, depois de ter ido ao Festival de Cannes de Publicidade, saí do metrô, distraidão, e me deparei com uma frase pichada no muro que dizia assim: “Aquilo que a gente faz de forma não consciente, surge depois como destino.” Eu, na hora, parei, fiquei pensando, tentando entender, anotei aquilo e depois fui descobrir que essa frase era do Jung (Carl Gustav Jung, psicanalista suíço). Isso ficou na minha cabeça durante um bom tempo e pensei: ‘Preciso fazer alguma coisa com essa frase’. Mas esqueci. Quando tive contato com a história real (da vida de Marcelo Rocha) e falaram para mim ‘Vamos fazer um sitcom com isso?’, na hora me voltou a frase e eu falei: ‘Não, temos que fazer um filme’. E o filme era botar essa frase em ação. O farsante se encaixa muito bem na ação dessa frase, na minha opinião, porque o farsante é aquele que está agindo em nome de outro, o outro não tem consciência. Se nós não temos consciência da essência de nós mesmos, imagine uma pessoa se passando por outra. Ela não tem consciência alguma. Então, o farsante se encaixava na frase. E aí ela foi determinante da coisa. Clubeonline: Você já disse em entrevistas que ‘Boggie nights’, do diretor Paul Thomas Anderson, tem muito a ver com VIPs, inclusive havendo cenas de VIPs em que você faz uma releitura do longa de Anderson. Você citaria outras obras cinematográficas e diretores que o tenham inspirado? Melo: Olha, a ‘alma’ do personagem que o Wagner (Moura, protagonista do filme, no papel de Marcelo Rocha) faz, nasce de um filme que eu mostrei para o Bráulio (Mantovani, roteirista de VIPs junto com Thiago Dottori), que se chama “A agenda”, do diretor francês Laurent Cantet, que também dirigiu “Entre os Muros da Escola”. Esse cara é fantástico, ele esteve aqui em São Paulo, eu fui me encontrar com ele, ele é um gênio para mim, brilhante. “A agenda” é um filme que também trata de uma história real, só que ele a 'ficcionou' completamente. Ele só manteve a estética ‘dramática’ da história real. Esse longa foi muito importante para que a gente tivesse certeza de que tinha mesmo que 'ficcionar' a história de VIPs. Outro muito importante, também como estrutura dramática, foi um longa do John Ford chamado “The informer”, que é um filme raro dele e que conta a história de um alcaguete na Irlanda. A estrutura dramática do filme é muito interessante, eu a chamo de “efeito dominó”, assim como em VIPs. Isso se encaixa também naquela frase (de Jung), já que o “efeito dominó” é uma peça derrubando a outra, ela não tem opção, só resta a ela cair e derrubar outra. Eu diria que esses filmes (“Boogie nights”, “A agenda” e “The informer”) são fundamentais para VIPs. Melo: Eu não sei te dizer isso, acho que teve influência, mas não sei falar quando ou como. Na hora em que você está fazendo um longa, surgem coisas de cunho mais intelectual, de vivência espiritual, posso até dizer. Você está experimentando, colocando em ação um personagem da sua mente. Isso, no tipo de filme publicitário que eu fazia, só exercitava um pouquinho, porque nem todos os roteiros de comerciais permitem que você interfira. Ou quase nenhum, para falar a verdade. Agora, o que eu posso afirmar com categoria é que, como disse o Fernando (Meirelles) sobre mim, para o presidente da Universal: “Ele tem mais horas de set do que qualquer diretor de longa seu nos EUA”. E é verdade. Eu filmava – meu Deus do céu! – muito. Então, posicionar câmera, velocidade, qualidade da luz, conversar com ator e esperar uma atitude dele, essas coisas todas eu acho que adquiri fazendo publicidade. E outra coisa que fiz muito antes da publicidade foram os documentários, na época em que trabalhei na produtora Olhar Eletrônico. Eu dirigia o Ernesto Varela. Também fiz um monte de clipe, inclusive o primeiro da Legião Urbana – que está no VIPs. Nos anos 80, tive experiência nessas áreas. E dos anos 90 até agora, antes de eu ir para a série “Som e Fúria” e depois para o longa, tive experiência em publicidade. Clubeonline: Fale um pouco mais de sua experiência na publicidade. Melo: Eu tive a sorte de pegar uma época de ouro na publicidade, eu e o Fernando (Meirelles). A gente pegou uma época em que os redatores é que mandavam e eles são ótimos roteiristas. Hoje, eles não têm tanto espaço, ao que parece. Mas era uma delícia, os caras eram muito espirituosos, com um humor refinadíssimo. Na verdade, ainda são, porque eles continuam aí no mercado, mas a publicidade mudou muito. Só para ilustrar, vou falar de três campanhas bacanas e premiadas das quais participei no passado: Brastemp, Ipiranga e Estadão. Duas delas, de players pesados, com muito dinheiro – Brastemp e Ipiranga – e o Estadão, cuja campanha podia ser considerada tímida em termos financeiros. Isso chama a atenção porque o cerne da questão era a qualidade e não a grana. Mas pelo que eu ouço, essa troca com o diretor do filme quase não existe mais. Ou, quando existe, é pequena. O fato é que na época que eu fazia publicidade, eu era muito feliz. Eu ia para Cannes, mesmo se não tivesse filme meu lá, mas gostava de ir, de ver filmes ingleses, australianos, americanos e também observar como estavam os argentinos, que começavam a se destacar, os espanhóis, que faziam algumas coisas interessantes, os franceses. Para não parecer saudosista, se você soubesse a alegria que eu fiquei ao ver aquele filme do Darth Vader, The Force, com aquele menininho (criado pela Deutsch/LA para o novo Passat, da Volkswagen, assista aqui). Falaram para mim que esse filme teve mais de 26 milhões de downloads, não sei se é verdade, mas seja como for, foi um absurdo de tanto que foi visto. No Facebook, seis, sete pessoas ao mesmo tempo replicavam o comercial. Esse tipo de filme me deu um sentimento de “tomara que as boas almas tenham voltado à publicidade.” Eu gosto muito de publicidade, viu? Mas quando falo isso aos jornalistas de cultura, eles fecham a cara (risos). Clubeonline: Você acha que existe preconceito de setores do mercado cinematográfico em relação aos diretores que fazem publicidade? Melo: Muito preconceito. Mas existe dos dois lados. Estou sentindo na carne isso. Claro que existem criativos que acham até legal você fazer longas, se não fosse assim o Fernando (Meirelles) não estaria aí. Mas existe muito mais preconceito do lado de lá: o pessoal da cultura acha a publicidade o cocô do cavalo do bandido, uma caca. Muitos jornalistas diziam de forma irônica: “Você vem da publicidade?”. E eu dizia: “Venho da publicidade e do mundo da televisão independente, dos documentários. Aliás, creio que fiz mais documentários do que qualquer cineasta aqui no Brasil. Fiz o primeiro documentário sobre Cuba para a televisão brasileira, premiado pelo Jornal da Tarde como um dos melhores da história do Brasil, exibido em quatro capítulos na televisão, chamado 'Ernesto Varela em Cuba'”. Contava tudo isso e depois o jornalista não publicava, porque queria me taxar como “imbecilzinho publicitário”. Um deles até me chamou de “milionariozinho publicitário”, e eu falei para ele que adoraria (ser milionário), mas que não é assim. Do outro lado, (dos publicitários) também há um pouco de preconceito, mas existem gatos e lebres. Esses criativos com quem eu trabalhei, por exemplo, adoraram o fato de eu ter feito um longa, foram à pré-estreia do filme e tudo mais. Quando eu entrei na publicidade, vinha do universo da cultura. E fui chamado para dirigir comerciais justamente porque fazia esses documentários premiados. Clubeonline: Antes de dirigir VIPs, você já tinha assinado a série Som & Fúria com Fernando Meirelles para a TV Globo, adaptada para o formato de longa-metragem em 2008. O que achou de participar de um projeto para televisão que fugia dos moldes tradicionais da linguagem televisiva? Melo: Foi maluquice do Fernando (Meirelles), né? Pra variar. Vou tentar resumir a história. Existe uma série no Canadá chamada “Slings and Arrows”. E eu sou fãzaço dessa série, ela é maravilhosa, é uma série muito underground, só gente de teatro mesmo conhece. É o vídeo de cabeceira de gente como Gerald Thomas, Peter Brook. É “a” série. E eu sou apaixonado por ela. Um dia o Fernando chega e me diz: “Comprei os direitos de uma série do Canadá e queria que você dirigisse comigo; são seis capítulos”. Aí, eu disse para ele: “Ah é? E que série é essa?”. E ele: “Slings and Arrows” (risos). Maravilha, né? Fantástico. O que foi bom é que eu conhecia profundamente aquele assunto – também sou fãzaço de Shakeaspare – e peguei para dirigir exatamente a saga de Hamlet. O episódio fala sobre o jovem ator de novela das 7h que por um acaso do destino é obrigado a fazer Hamlet. E a sobrevida da companhia de teatro dependia do sucesso dessa peça. A proposta era fazer seis capítulos da série, mas a Globo falou que seis só não podia e aí a gente teve que fazer 12. Eu ia dirigir um episódio e já estava me preparando para fazer o VIPs, naquela época. Falei para o Fernando que dois capítulos não dava para dirigir, mas no final ele me convenceu e eu acabei dirigindo com ele o último capítulo da série também. Clubeonline: Você tem planos para TV? Melo: No molde de "Som e Fúria" eu gosto muito, porque o estilo de produção é muito parecido com o longa-metragem. Você pode pensar, dirigir, ensaiar, o tempo do ator é respeitado, o tempo do diretor também, isso me interessa. Mas eu já fiz muito televisão no passado também, né? E naquela época a gente rompeu com a linguagem, totalmente. Clubeonline: E por falar em planos, quais são suas expectativas com relação aos filmes publicitários, depois de ter ficado alguns anos sem dirigir comerciais. Melo: Eu estou tentando voltar. Tenho essa expectativa de voltar, mas tenho que me adaptar ao que está acontecendo hoje no mercado. Também me chama a atenção a publicidade online, que tem um vigor criativo gigantesco lá fora, mas aqui nem sempre. Acho que o Brasil não soube se adaptar - ou se apressou muito em querer se adaptar e não se adaptou - à internet. Clubeonline: Você viu algum comercial no Brasil que te chamou atenção, nos últimos tempos? Melo: Vou ser sincero, eu não tenho visto muito. Tenho assistido mais rolos internacionais e TV a cabo. O que eu vejo é que tem um gigantesco excesso de varejo. E um varejo não tão criativo. Isso era outra coisa que tinha nessa época de ouro sobre a qual eu estava falando. Me lembro dos comerciais maravilhosos da C&A. A marca que inovou no varejo. Hoje em dia, posso estar enganado, mas não vejo. O Millôr Fernandes, há uns dois anos mais ou menos, escreveu que estava com sua neta assistindo TV e ela perguntou: “Vô, o que esse comercial de carro quis dizer?”. E aí ele falou: “Se minha neta de 14 anos não está entendendo” (risos). Mas a produção publicitária é gigantesca, não dá para ver tudo; tem muita coisa sendo feita, pode ser que existam várias coisas boas por aí. Clubeonline: De qualquer maneira, você quer mesmo voltar a dirigir publicidade? Melo: Quero muito, mesmo porque esse é meu ofício, né? O próprio Ridley Scott disse, numa entrevista recente, que sem publicidade ele não vive. Imagina, o Ridley Scott, diretor do Blade Runner! Então, esse é nosso ofício e, na maioria dos casos, fiz com muito prazer e dedicação, a mesma dedicação com que fiz o longa, afinal, você não quer que um filme seu fique ruim. Melo: Gostaria muito que os criativos que não me conhecem pudessem me conhecer. Quero voltar a dirigir filme publicitário. Para fazer meu próximo longa, ainda vai demorar pelo menos dois anos, então, acho que é o momento certo de voltar a dirigir comerciais. Clubeonline: Já tem projeto para longa fechado? Melo: Estou com três projetos: eu comprei os direitos do livro “A Chave de Casa”, de uma escritora jovem carioca, chamada Tatiana Levy. Tem ainda a adaptação da peça do Bráulio Mantovani, “Menecma”, e o terceiro é um projeto secreto que eu não posso falar ainda. |
